O texto do
Jabor, “O Brasil está com ódio de si mesmo”, me incomodou, apesar de sua tese
não ser novidade. Em certo sentido, a ideia de que tem algo de recente nos
males da vida urbana brasileira e que esse algo novo se deve à recente coalizão
entre o patrimonialismo de Estado petista e o patrimonialismo oligárquico
tradicional, busca conferir uma dimensão psico-social à recente tese do FHC, publicada
na Folha, de que o PT converteu o “presidencialismo de coalizão” em
“presidencialismo de cooptação”. A diferenciação entre coalizão e cooptação
parece ser aqui apenas figura retórica, de quem está em campanha, se nos
perguntarmos o que bem pode significar um “presidencialismo de coalizão” num
país cuja cultura tem o “favor como mediação quase universal”, como celebradamente
formulou o vencedor das batatas, Roberto Schwarz. Seria o mesmo dizer que CPI é
apenas um instrumento investigativo do poder legislativo e não um instrumento
político, como sua prática legislativa a tornou.
A conexão
que sugiro aqui entre coalizão e favor não é figura retórica: a ideia de um
presidencialismo de coalizão, um sistema de governança mediado por alianças
programáticas, combinada com um traço geral da cultura, o favor, tende a gerar
uma conversão prática, a cooptação. Isso significa que não foi o PT que subverteu
nossa “democracia de coalizão” (FHC), ela já veio mediada pelo favor. Nem os
“bons costumes” de nossa cultura (Jabor), porque o favor é uma das mediações
que reatualiza o Brasil violentamente
desigual, contra o qual pessoas com biografias muito diferentes sempre se
mobilizaram e foram combatidas com violência física por patrimonialistas
oligárquicos (DEM) e neo-oligárquicos (PSDB) à frente do Estado.
O problema
em Jabor e FH, e é o que me incomoda, é aquilo que pressupõem em seus textos: Jabor pressupõe “defeitos
e doçuras do povo” como marca gentil de um imaginário nacional que nunca
existiu, ou talvez só tenha existido numa tarde qualquer com caffè macchiato no
Leblon; e FH pressupõe um presidencialismo que também nunca existiu, que não
combina com a ajuda seleta a banqueiros, com comprar votos para a reeleição,
com pagar 35 reais por guardanapos, com anistia de 1,8 bi a empresários no caso
Sudam e Sudene, etc. O que parece é que
esse Brasil não conhece o Brasil das mobilizações populares abafadas com o
sangue, que são muitas, e tentam dar sentido a contradições históricas que vêm
se acirrando. O Brasil de FH e Jabor tem como ponto de comparação uma idealização, o imaginário
de um povo defeituoso, mas doce mesmo assim, ou de um presidencialismo de
coalizão sem a mediação do favor e sua marca institucional, o
patrimonialismo. Aliás, o que será que ele quis dizer com "defeitos e doçuras do povo"? Que povo é esse?